segunda-feira, 3 de abril de 2017

197 - breve história de nós dois em três atos


[um: sinais]

Nem sei se antes daquela noite você tinha demonstrado alguma coisa. Sinceramente eu sou muito ruim em perceber sinais e isso é algo que sei sobre mim desde que me entendo por gente, essa minha incapacidade de entender os outros e daí desenvolvi o hábito de achar que talvez qualquer coisa seja alguma coisa, e na real tanto faz, porque não vou sacar mesmo... Todo possível sinal é um sinal de schrödinger e daí evito dar qualquer sinal porque como vou saber depois? Evitando ou não, talvez você tenha percebido, talvez tenha só arriscado, porque vai que você também não entendesse esses sinais, talvez tenha percebido e arriscado, mas, seja lá por que, resolveu chegar perto e pedir alguma coisa que já nem importa porque logo depois já conversávamos meio bêbados meio bestas encarando os olhos depois encarando os lábios depois se beijando de olhos fechados e lábios molhados.
E depois, naquela outra noite, e em todas aquelas outras noites depois da primeira em que nos vimos, sei que pouco importavam os sinais evitados, os mal-entendidos e os ignorados, porque me agradava ver seus olhos meio bêbados, ouvir suas palavras, incluindo as meio bestas e sentir seus lábios molhados.


[dois: café da manhã]

Todas essas noites tinham começos estranhamente diferentes mas o final parecido que envolvia nosso gozo misturado e um dos dois (você, geralmente) indo embora porque eu imagino que nenhum de nós tava pronto pra se encarar cara ao acordar. Por isso sei que tudo mudou naquela vez que te disse, não lembro bem se com palavras, que ficasse e você não quis ir.
Percebi que tudo tinha mudado não quando te vi adormecer na cama que durmo só, nem quando te vi acordar na cama que acordo só, mas quando me vi tentando adivinhar se gostava de café com leite ou puro, e se gostava de pão de milho que era o único que tinha sobrado na cozinha. Decidi, enquanto tomávamos café, que depois que fosse embora, que não pretendia que fosse logo, deveria te mandar uma mensagem pra saber se tinha chegado bem.


[três: olhares]

Tenho essa ideia de que nossos olhares trocados passaram, em algum momento, por algum motivo, de vontade para esquivas para quase um pedido silencioso de desculpas. Depois de quantas trocas de olhares que ficam por isso mesmo a gente deve esquecer o número do outro? Depois de quantos silêncios a gente deve apagar as longas e longas conversas e as fotos bobas do dia ou cheias de tesão da noite? Pensei nisso nos primeiros dias, quando deveria deixar de te considerar pros meus planos, e não cheguei a resposta alguma.
Parecia difícil, mas tão logo parei de pensar com tanto afinco, ela chegou, natural e leve, como quem diz: isso deveria mesmo ser complicado?

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