terça-feira, 11 de julho de 2017

201 - sobre a ordem natural das coisas (ou não-coisas, ou quase-coisas, ou coisas-pela-metade)

1. Percebe-se, tardia e culposamente, o quanto se está deixando o tempo correr todo solto. Como uma ampulheta de pescoço largo deixando a areia cair veloz sem que nada seja feito. E não seria melhor fazer algo agora enquanto ainda tem areia e condições de saber o que deve ser feito e de fazê-lo?

2. Organiza-se, a caneta, uma lista das coisas essenciais, das recomendáveis e das possíveis, sem muita distinção. As tarefas longas precisam ser esmiuçadas em subtarefinhas menores, de modo a saber de fato o que a promessa de realizá-la implica.

3. Feita a lista, traça-se um sucinto cronograma, separando os meses em semanas, estas em dias e os dias por sua vez em turnos. O tempo agora deve parecer escasso, mas domável. Agrupa-se o que deve ser feito em locais próximos. Arrumam-se os requisitos todos antes da posição das ocupações que precisam deles. Atenção aos prazos e hierarquia de importância. Deixa-se até mesmo intervalos para os imprevistos previsivelmente esperados.

4. Executa-se, para começar, a primeira das coisas. O sucesso, se acontece, rende uma comemoração silenciosa e fôlego para as próximas. Se não acontece, o fracasso leva a um sentimento de necessidade ainda maior de fazer a coisa seguinte.

5. As coisas que de fato são feitas levam a uma necessidade cada vez maior de descanso. As que, por outro lado, são buscadas mas não atravessam como deveriam do mundo dos projetos para o mundo real, incentivam a desistência.  Os imprevistos, mesmo previsíveis, tomam cada vez mais tempo. De todo modo, não se prossegue.

6. Em algum momento, deixa-se tudo profundamente para lá. Dorme-se. O tempo escoa, mais uma vez, frouxo e sem rédeas, ao mesmo tempo vasto e curto. Arrepende-se.

Um comentário: