quarta-feira, 20 de setembro de 2017

203 - sem título

Na porta, lhe dou um último beijo pra me despedir. Ele agora tem cheiro de erva e sabonete daquele rosinha. Vou embora ainda meio alto, sem muitas pretensões além de chegar em casa e dormir. Talvez uma cerveja, mas não tem nenhum lugar por perto vendendo cerveja depois das seis (motivo pra cogitar me mudar do bairro em breve). Logo passa um ônibus, meu ônibus, e tô tão nem aí com o mundo que nem lembro de ficar contente com isso. Tá meio cheio, mas tem um lugar na janela que me promete umas distrações até o caminho de casa. Me encosto e durmo e acordo pensando se falei alguma coisa enquanto dormia. É um medo que me acompanha mesmo não dizendo nada durante o sono há anos. Bem, se falei, não foi nada demais porque ninguém parece se importar. 
Só quando chego em casa vejo que tem uma porrada de notificação no celular. Parece que as meninas resolveram beber em algum lugar hoje. No meio de tanta mensagem, noto que ele, cujo cheiro ainda nem tirei direito de mim, tá digitando alguma coisa, mas acaba não mandando nada. Entendo perfeitamente. Ele também é de Câncer e sei que a gente fica se equilibrando no limite entre ser sensível e parecer paranoico. Imagino o que ele deve ter escrito, e se desistiu por achar bobo demais, íntimo demais, ou rápido demais. Rio um pouco, pensando em como somos parecidos. Tenho a impressão de que isso não o diverte tanto assim.
Vou ver aquele filme que tô adiando faz um tempo e acabo cochilando com o notebook no colo. Quando acordo, tem uma mensagem dele, enviada mais de uma hora antes. Uma só, que ocupa a tela toda do celular, falando sobre como ele tem pensado na gente nos últimos tempos e como gostaria de ter conversado sobre isso comigo mais cedo. No final pergunta se é ok ele pegar uma moto e aparecer. 
Eu nem sei o que responder e finjo que não preciso por tipo um minuto.
No final acabo dizendo que já tô saindo prum bar com as meninas. E vou.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

202 - notícias do futuro, pt. 2

PÍLULAS DE CRISTO DE VOLTA

A Igreja Universal Renascida em Cristo (maior congregação evangélica do país e principal descendente da Igreja Universal do Reino de Deus) obteve a liberação para a venda das "pílulas milagrosas de Jesus", revertendo a decisão judicial do Tribunal Maior do Espírito Santo, que havia suspendido a venda dos artefatos até o final do processo. A liminar veio do Tribunal de Justiça da Nação, onde pelo menos um terço dos juízes são fiéis da IURC.
As pílulas, propagandeadas como as células de Jesus Cristo que sobreviveram e continuam se multiplicando e operando milagres divinos, aumentaram os rendimentos da organização em pelo menos 35%, segundo estimativas. "É realmente um milagre", disse Enzo Fontoura, do Instituto de Economia da Universidade Kroton III.
A Igreja Jesus Voltará (em Breve!), dissidente menor da IURD após o grande racha, entrou inicialmente com o processo alegando que a ex-companheira de cultos  praticava propaganda enganosa, vendendo como sagrado as mesmas pílulas de células-tronco asiáticas encontradas no mercado ilegal (Confira aqui a matéria da edição nº 95 sobre o comércio ilegal de células-tronco que se inicia com o processamento de embriões na Indonésia e abastece 80% do mercado mundial). Além disso, acusa a IURC de extorsão de seus fiéis "em níveis descabidos até mesmo para uma igreja neopentecostal".
Na liminar, que possui nada menos que 17 trechos do Novo Testamento, aponta-se a importância do comércio ligado às Igrejas como "fundamental para a manutenção da economia saudável e harmonia e bem-estar entre os cidadãos". Há indícios inclusive que a IJV (em Breve!) possa sofrer um revertério processual de calúnia, sendo agravado pela importância social da acusada. O Pastor e Ministro da Educação e Cultura Matias Benjamim, líder da IURC, afirmou em entrevista à Google TV que eles ainda "ressentem questões relativas à divisão dos ganhos dizimais de anos atrás."

terça-feira, 11 de julho de 2017

201 - sobre a ordem natural das coisas (ou não-coisas, ou quase-coisas, ou coisas-pela-metade)

1. Percebe-se, tardia e culposamente, o quanto se está deixando o tempo correr todo solto. Como uma ampulheta de pescoço largo deixando a areia cair veloz sem que nada seja feito. E não seria melhor fazer algo agora enquanto ainda tem areia e condições de saber o que deve ser feito e de fazê-lo?

2. Organiza-se, a caneta, uma lista das coisas essenciais, das recomendáveis e das possíveis, sem muita distinção. As tarefas longas precisam ser esmiuçadas em subtarefinhas menores, de modo a saber de fato o que a promessa de realizá-la implica.

3. Feita a lista, traça-se um sucinto cronograma, separando os meses em semanas, estas em dias e os dias por sua vez em turnos. O tempo agora deve parecer escasso, mas domável. Agrupa-se o que deve ser feito em locais próximos. Arrumam-se os requisitos todos antes da posição das ocupações que precisam deles. Atenção aos prazos e hierarquia de importância. Deixa-se até mesmo intervalos para os imprevistos previsivelmente esperados.

4. Executa-se, para começar, a primeira das coisas. O sucesso, se acontece, rende uma comemoração silenciosa e fôlego para as próximas. Se não acontece, o fracasso leva a um sentimento de necessidade ainda maior de fazer a coisa seguinte.

5. As coisas que de fato são feitas levam a uma necessidade cada vez maior de descanso. As que, por outro lado, são buscadas mas não atravessam como deveriam do mundo dos projetos para o mundo real, incentivam a desistência.  Os imprevistos, mesmo previsíveis, tomam cada vez mais tempo. De todo modo, não se prossegue.

6. Em algum momento, deixa-se tudo profundamente para lá. Dorme-se. O tempo escoa, mais uma vez, frouxo e sem rédeas, ao mesmo tempo vasto e curto. Arrepende-se.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

200 - sem título

não tão raro a gente encontra uma daquelas pessoas
com que temos umas
vamos dizer que
tensões sexuais mal resolvidas

mesmo que não se sabe direito de onde que ela vem
e se ainda existe reciprocamente
mas que que a gente desconfia
quando vê
entre outras pequenices menos escrevíveis
uns olhares daquele jeito
que ao mesmo tempo analisam afirmam convidam

começo a pensar que essas coisas
só passam com transa
ou com uma coisa tão nojenta quanto

quarta-feira, 24 de maio de 2017

199 - notícias do futuro - I

*Por motivos óbvios, estou impedido de revelar minhas fontes.

EMPRESA CHINESA SHIGON GANHA MEGALICITAÇÃO PARA INSTALAÇÃO E OPERAÇÃO DO HIPERTREM RIO-SP

Maior empreendimento dos chineses no país, a obra, orçada em R$ 28,6 bi, deve ser concluída em 2031.


ÁREA DE CONSERVAÇÃO DA AMAZÔNIA É CRIADA NO ACRE

Parque Ecológico Bradesco não é suficiente para compensar a perda de floresta provocada pela chegada da soja na Amazônia acreana, segundo os ambientalistas, e deixa 150 hectares de terras indisponíveis para o cultivo, segundo os produtores.


PRESO TRABALHADOR RURAL QUE PROCESSOU SENADOR

No norte de Mato Grosso, José Antônio dos Santos, 39, foi condenado a três anos de detenção pelos crimes de calúnia e incitação à desconfiança quando no processo em que acusou a valorosa Alves Plantações, do senador Ranolfo Alves (PPB-MT) de superexploração do trabalho. "Não podemos deixar que trabalhadores de nossas fazendas e empresas, recebendo teto e alimento todos os dias, se voltem contra o modo de gerar riqueza para o país", disse o senador, ao saber da decisão da Justiça. Alves também diz que está articulando com partidos aliados no congresso para a aprovação de seu projeto de lei que retira o termo "superexploração" das leis trabalhistas. Esperançoso, promete: "Com fé no nosso bom deus, vamos evitar que esse tipo de confusão se repita".


CIENTISTAS COMPROVAM: MICROONDAS CAUSAM CÂNCER

Cientistas japoneses, após uma pesquisa de 3 anos, concluem o que muitos temiam: os aparelhos convencionais que temos na cozinha aumentam a probabilidade de contrair a doença. Eles descobriram relação entre os raios microondas e pelo menos sete dos tipos mais comuns de câncer. No mesmo estudo, os cientistas apontam os novos aparelhos NanoWave™ como inofensivos para a saúde humana, além da maior eficiência, já que provocam o aquecimento de maneira uniforme. Sorte a nossa, pois essas inovações asiáticas sem riscos à saúde acabaram de chegar no Brasil.



terça-feira, 2 de maio de 2017

198 - breve reflexão sobre nossa busca incessante pela atenuação da culpa encontrando outros culpados

Temos, e quando digo temos o sujeito não sei bem se se encontra nos brasileiros, os culturalmente descendentes da moral cristã, ocidentais de maneira de geral ou simplesmente seres humanos do pós-guerra, mas temos que parar com essa mania feia, muito feia, de tentar pegar a culpa e distribuí-la como se o perdão fosse encontrado no compartilhamento do erro por todos nós que viemos depois de Eva e portanto como repreender um só coitado?
Pensando assim talvez não seja tão loucura pensar que se a mulher trai o marido, a surra que ele lhe dá é menos forte ou se o prefeito anterior do outro partido também empregou a cunhada ou recebeu propina dos empresários locais então talvez o que o atual fez não seja tão reprovável...
Procura-se, arduamente, a culpa em quem sofre e parece que, sendo nós todos imperfeitos e culpados, em certa parcela, das mazelas do mundo, somos todos vítimas e algozes.
Mas convenhamos, nossas parcelas são tão distintas e tão assimétricas...

segunda-feira, 3 de abril de 2017

197 - breve história de nós dois em três atos


[um: sinais]

Nem sei se antes daquela noite você tinha demonstrado alguma coisa. Sinceramente eu sou muito ruim em perceber sinais e isso é algo que sei sobre mim desde que me entendo por gente, essa minha incapacidade de entender os outros e daí desenvolvi o hábito de achar que talvez qualquer coisa seja alguma coisa, e na real tanto faz, porque não vou sacar mesmo... Todo possível sinal é um sinal de schrödinger e daí evito dar qualquer sinal porque como vou saber depois? Evitando ou não, talvez você tenha percebido, talvez tenha só arriscado, porque vai que você também não entendesse esses sinais, talvez tenha percebido e arriscado, mas, seja lá por que, resolveu chegar perto e pedir alguma coisa que já nem importa porque logo depois já conversávamos meio bêbados meio bestas encarando os olhos depois encarando os lábios depois se beijando de olhos fechados e lábios molhados.
E depois, naquela outra noite, e em todas aquelas outras noites depois da primeira em que nos vimos, sei que pouco importavam os sinais evitados, os mal-entendidos e os ignorados, porque me agradava ver seus olhos meio bêbados, ouvir suas palavras, incluindo as meio bestas e sentir seus lábios molhados.


[dois: café da manhã]

Todas essas noites tinham começos estranhamente diferentes mas o final parecido que envolvia nosso gozo misturado e um dos dois (você, geralmente) indo embora porque eu imagino que nenhum de nós tava pronto pra se encarar cara ao acordar. Por isso sei que tudo mudou naquela vez que te disse, não lembro bem se com palavras, que ficasse e você não quis ir.
Percebi que tudo tinha mudado não quando te vi adormecer na cama que durmo só, nem quando te vi acordar na cama que acordo só, mas quando me vi tentando adivinhar se gostava de café com leite ou puro, e se gostava de pão de milho que era o único que tinha sobrado na cozinha. Decidi, enquanto tomávamos café, que depois que fosse embora, que não pretendia que fosse logo, deveria te mandar uma mensagem pra saber se tinha chegado bem.


[três: olhares]

Tenho essa ideia de que nossos olhares trocados passaram, em algum momento, por algum motivo, de vontade para esquivas para quase um pedido silencioso de desculpas. Depois de quantas trocas de olhares que ficam por isso mesmo a gente deve esquecer o número do outro? Depois de quantos silêncios a gente deve apagar as longas e longas conversas e as fotos bobas do dia ou cheias de tesão da noite? Pensei nisso nos primeiros dias, quando deveria deixar de te considerar pros meus planos, e não cheguei a resposta alguma.
Parecia difícil, mas tão logo parei de pensar com tanto afinco, ela chegou, natural e leve, como quem diz: isso deveria mesmo ser complicado?